A Grande Leitura · 7 de abril de 2026

O nome mais presente do MPB Cinematic Universe

MCU e DCU são os Cinematic Universes (Universos Cinematográficos) da Marvel e da DC. No Brasil, temos o que chamo de MPBCU (Universo Cinematográfico da Música Popular Brasileira). São as cinebiografias dos nossos artistas do mundo da música. Você sabe quem é o “personagem” mais presente do MPBCU? Não é Caetano Veloso (que curte mesmo é aparecer em documentários), tampouco é o “rei” Roberto Carlos. O nome mais onipresente da MPBCU é Carlos Imperial.

Ele aparece nos filmes Tim Maia (2014), Minha Fama de Mau (2019), Simonal (2018) e na série do Raul Seixas (2025). Não vi o filme da Elis Regina (2016), mas ele poderia sim figurar na cinebiografia da “pimentinha”. Imperial produziu, aos trancos e barrancos, o primeiro disco de Elis: Viva a Brotolândia. Ele queria lançar Elis como artista jovem, aos moldes de Cely Campelo, mas ela queria mesmo era cantar boleros. Segue o disco:

Não é novidade nenhuma que Carlos Imperial foi uma das figuras com mais conexões da nossa indústria fonográfica.

Ele ainda pode aparecer em inúmeras possíveis futuras cinebiografias, como a de Roberto Carlos, Eduardo Araújo, a Turma da Pilantragem, Renato e seus Blue Caps e muito mais. Vamos às participações no MPBCU, até agora.

Tim Maia (2014)

Em 2014, Imperial foi interpretado por Luis Lobianco. Ele aparece em cena em palco com Roberto Carlos e depois discutindo a alcunha de “Tião Maia”: “Parece nome de auxiliar de almoxarifado“.

Imperial seria o responsável por dar ao filho de dona Maria Imaculada seu nome artístico: Tim Maia. Parte dessa cena abre o trailer do filme:

Vou postar aqui um trecho do livro Vale Tudo, do Nelson Motta, que conta melhor o imbróglio Tim Maia-Carlos Imperial-Roberto Carlos:

Foi no “Clube do Rock” que Tião e Roberto conheceram o gordo Imperial, compositor, produtor e empresário artístico, o principal divulgador do rock-and-roll no Rio de Janeiro, que também promovia shows em clubes da Zona Norte e dos subúrbios. Depois de um breve teste numa sala da emissora, no antigo Cassino da Urca, Imperial escalou-os imediatamente. Foi a primeira e única apresentação dos Sputniks na televisão.

(…)

A confusão começou depois do programa. Tião estava com fome e foi com Arlênio e Wellington comer um salgado num bar. Roberto ficou na porta da televisão, e quando viu Imperial saindo, lhe disse que também era de Cachoeiro e que imitava Elvis Presley. Imperial tinha gostado da apresentação dos Sputniks e deixou que Roberto cantasse alguma coisa de Elvis. Depois de ouvir “Tutti Frutti” e “Jailhouse Rock”, com Roberto se acompanhando no violão, Imperial não teve dúvidas e escalou-o para o próximo programa.

(…)

Na terça-feira seguinte, Tião soltou uma saraivada de palavrões quando viu Carlos Imperial na televisão anunciando no “Clube do Rock”:

“Alô, brotos, vamos tirar o tapete da sala e afastar os móveis porque hoje é dia de rock! E agora com vocês, o Elvis Presley brasileiro… Robeeeerto Caaaarlos!”

Espumou de raiva ao ver Roberto entrar sorridente com seu violão e cantar “Jailhouse Rock” sentado em uma lambreta e cercado por jovens que dançavam rock-and-roll.

“Se ele é o Elvis Presley então eu posso ser o Little Richard, e muito melhor!”, pensou Tião, pegando o violão e tomando um ônibus para o Cassino da Urca.

Procurou Imperial, anunciou o fim dos Sputniks e obrigou-o a ouvir um “Long Tall Sally” eletrizante. Imediatamente foi escalado, ainda que meio a contragosto, porque Imperial não tinha simpatizado nada com aquele gorducho encrenqueiro, mas não era surdo e nem burro: o cara cantava demais, talvez melhor até que Roberto, e seria um sensacional Little Richard brasileiro. Só não podia se chamar Tião, que não era nome de artista. Imperial sugeriu Tim e ele não gostou, achou meio afrescalhado, mas acabou aceitando.

Simonal (2018)

Leandro Hassum foi o Imperial do filme de 2018 sobre Simonal. O produtor cultural foi um dos responsáveis por lançar o intérprete de Meu Limão, Meu Limoeiro. Foi Imperial, inclusive, que registrou como autor dessa canção, que era de domínio público até então. Simonal trabalhou como secretário do fundador do Clube do Rock.

Segue foto do trailer do filme, onde aparece Hassum:

Agora veja o trailer:

Leia um trecho da biografia “Nem Vem Que Não Tem – A Vida e o Veneno de Wilson Simona”, de Ricardo Alexandre:

Simonal deixou de ser um cantor e se transformou em ícone. Além das roupas, do sorriso, da voz e de acessórios como o boné e os óculos, havia as gírias que ele lançava ou reverberava em seu programa. Algumas eram trazidas do dialeto dos músicos de jazz cariocas, outras ele ouvia na rua e outras ainda eram inventadas por ele ou por Carlos Imperial. Todas eram imitadas por fãs do Brasil inteiro e algumas sobrevivem até hoje no nosso vocabulário.

Se algo era ruim, passou a ser “devagar”; se era muito ruim, virou “devagar quase parando”; se uma coisa era boa, podia ser chamada de “quente”; quem não dá bola para nada “está em outra”; papo furado virou “milonga”; quem se dava mal “se machucava”. Algumas expressões também eram dignas de nota, como “não põe formiga no meu pão” (algo como “não atrapalhe a minha jogada”) ou “eu sei onde está o coringa” (que significa o mesmo que “deixa comigo que eu sei das coisas”).

Carlos Imperial costumava dizer que não admitia ver Simonal sendo chamado de “rei da pilantragem”, porque só ele, Imperial, era pilantra 24 horas por dia. Mas a verdade é que agora Simonal estava tão rico quanto seu descobridor: tinha carrões importados, um programa liderando o IBOPE e uma coleção de sucessos nas rádios. Era Simonal, o “todo onipotente da pilantragem”, o nosso James Bond. Finalmente, o menino da favela da Praia do Pinto vestiu o personagem que ele sempre sonhou ser.

Minha Fama de Mau (2019)

Carlos Imperial não poderia deixar de figurar no filme do Erasmo Carlos. O “Tremendão” seguiu os passos de Simonal e foi secretário de Imperial até conseguir se lançar no mundo da música. O fundador do Clube do Rock foi interpretado por Bruno de Luca, em uma interpretação bem água com açúcar pro nível de intensidade que era o produtor. Você pode ver um trecho a seguir:

Segue um trecho da autobiografia do Erasmo, que manteve contato com o Imperial até a morte do produtor cultural.

– Olha lá o sacana do Erasmo usando minhas roupas!

Era o que Imperial – nos bastidores do seu programa Os Brotos Comandam, na TV Continental, em 1963-dizia para a namoradinha da vez e suas amigas, apontando para mim. Eu me vestia sempre com seus conjuntos safári de lonita brilhante (must de tecido na época), feitos sob medida, nas cores azul-claro, azul-marinho e verde-musgo. Como ele usava as roupas algumas vezes e depois se desfazia delas, eu aproveitava.

– Até meus mocassins de pele de carneiro cabem certinho nele – completava Imperial, todo gabola, apontando para os meus pés.

Confesso que ficava meio sem graça por achar que ele não precisava comentar a doação, mas não ligava, pois aprendi com minha mãe que “pobre não tem soberba”. Além disso, se recorresse ao meu cofrinho, que era uma caixa de charutos, o máximo que eu poderia comprar seria uma calça rancheira faroeste e um sapato Vulcabrás com sola de PVC. No futuro, eu também daria minhas roupas para Tim Maia, Tony Tornado e muitos outros.

Raul Seixas (2025)

Na série do Raul Seixas, ele é interpretado por Rafael Maia.

Segundo Carleba, baterista da Raulzito e Seus Panteras, a banda teve uma interação extremamente merda com Imperial, que era quem poderia abrir as portas da cena musical do Rio de Janeiro – e, por consequência, do Brasil. Imperial nem mesmo é creditado na série. Ele aparece como “Diretor Artístico”. O nome do Rafael Maia não aparece nem mesmo no IMDB.

A cena está disponível no YouTube e pode ser vista aqui:

Segue o trecho do livro O Raul que me contaram, de Tiago Bettencourt, que inspirou essa cena:

Muito mal, muito mal. Raul era uma pessoa muito suscetível a… Tanto é que aquele lance do Carlos Imperial que eu lhe falei foi verdade também. Carlos Imperial, na época, era o cara que comandava. Tinha programa de rock, era ele que tinha música, que gravava, que dava oportunidade. “Vamos procurar Carlos Imperial.” Aí, conseguimos lá, não sei através de quem, que Carlos Imperial nos recebesse. E Carlos Imperial era um boçal. E aí fomos lá e ele chegou assim, desceu a escada com aquela barrigona, aí sentou e disse: “E aí?”. – “Nós somos da Bahia.” – “Sim, vocês querem o quê?” “Queria lhe mostrar umas coisas aí para ver o que o senhor acha.” “Mostra aí.” (risos)

Aí mostrou a primeira, mostrou a segunda, na terceira ele falou: – “Pode parar. Vocês são da Bahia, né?” – “É, somos da Bahia.” – “Peguem o primeiro ônibus e volte para a Bahia, porque iguais a vocês tem mais de dez mil conjuntos aqui no Rio de Janeiro.” Raul quase morre. E aquilo para ele administrar, aquele tipo de coisa, era muito complicado, né? Eu, que sabia da minha, como sei até hoje da minha competência, do meu potencial, entrou por aqui e saiu por aqui (aponta para os ouvidos), mas Raul ficou muito ruim. Eu disse: “Raul, esse cara… esquenta não”. E ele: “Pô, e agora? O que a gente faz?”. “Rapaz, você vai seguir um cara desse? Um maluco desse aí? Esqueça isso.”

Então, ele era muito suscetível a essas coisas. Era da própria natureza dele. Ele ficava para baixo, ficava introspectivo, ficava triste, diferente de mim.

Tanto é que muitos anos depois, Carlos Imperial se encontrou com ele, isso eu não sei se é verdade, mas disse que falou com ele: “Pô, parabéns, sua música é muito bonita”. E ele disse: “É? Ainda bem que eu não segui o seu conselho e voltei”. Acho que houve essa situação, não sei se é verídica. Ele com o Carlos Imperial, depois dele já famoso.

Tomando como base o MCU, Imperial seria o nosso Nick Fury, que reúne os talentos dispersos pra lutar por um mundo (musical) melhor.

Pra finalizar esse texto: esqueci alguma presença do Imperial em cinebiografias? Você tem um nome melhor que MPBCU para o Universo Cinematográfico da Música Popular Brasileira?