Causo · 4 de novembro de 2025

Sobre Pessoas sem pai ou mãe na certidão de nascimento

Um papo em outra rede sobre pessoas sem o nome do pai na certidão de nascimento motivou esse #causotrabalhista

Trabalhei numa gráfica rápida do meu pai ( Alaor Barbosa) no Largo da Carioca, no Centro do Rio de Janeiro. A Uber montou o escritório no prédio. Além de cópias, impressões, design de peças gráficas, a gente oferecia também serviço de lan house.

No início, os interessados em trabalhar para/com a Uber iam lá só usar o computador, fazer o pré-cadastro e subir pra empresa. Foi um pulo pra gente começar a oferecer já o serviço de “pré-cadastro completo” – até porque era mais rápido executarmos o serviço do que só oferecer o tempo de lan house e explicar o passo a passo do cadastro. Os dois lados saíam ganhando (os três lados, se contar a Uber).

Se não me engano, cobrávamos R$ 10 o serviço. Poderíamos cobrar mais que pagariam. Mas, se lembro bem, o Alaor Barbosa disse pra não cobrar um valor excessivo porque eram pessoas desempregadas procurando requalificação.

(A gente também montava currículos para desempregados e não cobrávamos a mão de obra, só as cópias impressas)

Teve uma época que alguns atendentes da Uber começaram a indicar a gente para pessoas que chegavam lá sem o pré-cadastro pronto. Formavam-se filas enormes no subsolo do edifício Largo da Carioca, na rua Senador Dantas, n. 117. A gente tirava o Nada Consta, escaneava os documentos e subia pro sistema da Uber. Apenas uma vez apareceu um cara com anotação na ficha criminal pedindo pra gente “mexer no Photoshop” pra subir um documento “limpo”. Negamos.

Os computadores da Lan-house não ficaram vagos. As pessoas passaram a usar pra fazer o curso que a Uber oferecia pra se tornar motoristas. Foram uns 2 ou 3 meses nesse frenesi até a Uber mudar a forma de cadastro.

Durante a espera, o povo contava histórias. Era época da Lava-Jato. Muitas pessoas demitidas, principalmente engenheiros, das empresas investigadas migraram pra Uber. A gente via ali o que tempos depois vieram chamar de “a destruição da engenharia brasileira”.

Sobre pessoas sem o nome do pai na certidão de nascimento: impressionava a quantidade de gente que chegava sem esse dado no documento. Dados do Portal da Transparência apontam que o percentual de pais ausentes é de aproximadamente 5,28% em nascimentos de 2016 até hoje.

E só apareceu um caso com o nome do pai e ausência do nome da mãe. Foi um caso que a mulher, casada, teve o filho fora do casamento – “aquela rapariga”, disse o rapaz na minha frente, ainda com rancor da mãe que não assumiu ele. E descobri que até a Constituição Cidadã de 1988, a lei permitia esse tipo de ausência para preservar o matrimônio.

Links de referência:

O prédio onde ficava a gráfica e o escritório da Uber