Causo · 11 de fevereiro de 2026

Por que a Tijuca não é parte do Centro?

Há um tempo atrás, alguém no Reddit postou uma opinião sobre como não considerava a Tijuca parte da Zona Norte do Rio de Janeiro, por ser muito discrepante da região suburbana da cidade. Para ele, deveria fazer parte da região Central da capital fluminense. Curto muito ler a história da cidade do Rio de Janeiro e tinha essa resposta na ponta da língua.

Segue a minha resposta:

Existe “a cidade”, que era o Centro do Rio. E a área de expansão foi pra S. Cristóvão, Tijuca, etc, que antes eram fazendas (Engenho Velho, Engenho de Dentro, Engenho Novo) e depois viraram áreas nobres com grandes casarões, com grandes avenidas e calçadas. Uma área urbanizada. A “cidade” continuava com configuração histórica portuguesa, com calçadas pequenas e sobrados.

Então há aí um contraponto histórico entre “Centro/Cidade” e a região da Grande Tijuca.

Sem túnel, ZS era de difícil acesso.

Avança alguns anos e Rio de Janeiro se urbaniza. Avança pra ZS e abre outras frentes pra ZN. Mas na Zona Norte essa ocupação acontece de forma mais desordenada, não como aconteceu na região da Grande Tijuca. Então há uma Zona Norte com algum maior ordenamento (região da Grande Tijuca) e uma Zona Norte de mais difícil acesso, suburbana. Suburbano vem da palavra subúrbio, que vem de sub urbe – fora da urbe, da cidade.

Grande Tijuca ainda é Zona Norte, mas não seria uma Zona Norte suburbana.

É mais ou menos por aí.

Tem um livro que tô namorando há tempos pra ler: Dicionário da hinterlândia carioca

Nei Lopes define a expressão hinterlândia carioca como “a região afastada do centro metropolitano, tido como  culturalmente mais importante”. No Rio, a expressão, antes mesmo do século XVI, já definia o conjunto das localidades “às margens dos trinta e três rios que deságuam na Baía de Guanabara” e “aquelas pertencentes às demais zonas rurais”. E dentro desse universo existe um vocabulário próprio e cheio de histórias pra contar.

A ideia de subúrbio foi construída pelas classes dominantes como um espaço idealizado (com uma suposta “pureza” original do homem do povo e de sua sociabilidade) e como espaço de transgressão (um subúrbio que, de forma oposta ao primeiro, não é “puro”); cheio de contradições e sofrimentos impostos pelo jugo de uma exploração. Foram essas elites que, tomando a natureza como parâmetro, optaram pela separação da cidade em duas partes: uma,
predominantemente litorânea, abrigando preferencialmente os ricos e remediados; outra, do outro lado da grande montanha, reservada aos cidadãos tidos como de segunda classe.


Nos verbetes do Dicionário da Hinterlândia Carioca o subúrbio é o lugar privilegiado onde o urbano encontra o rural, onde o nacional abraça o global e onde o presente mais fortemente se nutre do passado. É nele que o fato cultural passa pelo filtro ou pelo amplificador da indústria para se espalhar pelo Brasil e ganhar o mundo.

Um dicionário que é um verdadeiro mapa para se perder pela história dos subúrbios do Rio

Igreja de São Francisco Xavier, localizada ao lado da estação de metrô de mesmo nome. Crédito: gsctt | Wikipedia